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CRÔNICAS PAULISTANAS.


ULTRAMARATONA NO CAMINHO DA FÉ

CONTRA GADO, NÃO TENHO RECEITA DE COMBATE, SÓ DESPREZO.

     Eu sou especialista em enfrentar cachorros. Aliás, nesta BR 135, a ultramaratona do Caminho da Fé, fui pouco assediado pelos cachorros, não suscitaram nenhum episódio digno de nota. Dignos de nota foram os bezerros sonâmbulos que me assustaram na última noite, no trecho mais despovoado do percurso, entre Consolação e Paraisópolis. Nessa fase da prova é comum algum delírio entre os competidores: desidratados, subalimentados, cansados e com sono, costumam ter visões... Não era o meu caso, eu tinha um sanduíche de reserva e minha mochila de água estava pela metade e, surpreendentemente, não estava com sono, talvez por conta dos meus dois cochilos de meia hora cada em pontos estratégicos e, especialmente, por causa das elevadas doses de “inas” que circulavam em meu sangue por conta da grande motivação decorrente do excelente tempo que eu já previa.

     As vacas dormem em pé. E os bezerros. Uma vaca é grande, percebemos de longe. Os bezerros são  pequenos, só vemos quando estamos em cima: de repente, aquele pequeno vulto começa a se mexer e percebemos que se trata de um ser vivente, daí o susto. Mas gado é gado em qualquer parte, não vale a pena gastar energia com eles. Quanto aos cães...  sou especialista:   “O cão só é amigo de um único homem-seu-dono. Dos demais é inimigo. Então, proponho mudar o ditado para “o cão é inimigo do Homem”. Inimigo pequeno. Eu já havia dito que a melhor arma contra os cachorros que infestam os caminhos é a nossa superioridade intelectual.” (neste BLOG, dia 20.12.06).



Escrito por Roberto Buzzo às 20h02
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ULTRAMARATONA NO CAMINHO DA FÉ

 

1)     62 homens e mulheres ousados largaram dia 23.01.10 às 8h na praça central de São João da Boa Vista (SP), com destino a Paraisópolis (MG), cidadezinha no meio das montanhas da Serra da Mantiqueira, na direção de Campos do Jordão, com tempo máximo de 60h para chegarem lá, seguindo as placas do Caminho da Fé: 217 Km.

 

2)     Para saber mais sobre o Caminho da Fé, consulte – NESTE BLOG – os dias “09.09.07 a 15.09.07”, “16.09.07 a 22.09.07” e “23.09.07 a 29.09.07” (aí à esquerda). São meus registros, após percorrer o Caminho, como peregrino, entre Tambaú (SP) e Aparecida (SP), em 9 dias, em setembro/2007.

 

3)     No trajeto da competição havia 4 postos de tomada de tempo. No primeiro eu estava em 54º lugar; no segundo em 45º; no terceiro em 40º, no quarto em 20º e, no final, em 17º. Eu acelerei? Não. Apenas mantive meu ritmo e descansei pouco. Isso quer dizer que a maioria saiu pensando “que berimbau é gaita”.

 

 4)    Solidão. O último trecho, de 43 Km, iniciei às 19h. Só vi gente nos primeiros 3 ou 4 Km, até um lugarejo após Estiva, onde havia gente na praça e em Consolação, cidadezinha no meio desses 43 Km;  e no posto de controle da prova, no Km 200 da corrida. É um pedaço pouco povoado, desolado, encontrei muito gado na estrada e alguns bezerros sonâmbulos. Poucos cachorros.

 

5)     Na tarde anterior – domingo – passei por vários campos de futebol: ninguém jogando.

 

6)     Venda Nova é um povoado entre Tocos do Moji e Estiva. Esquecido, ninguém fala nele, o roteiro do Caminho ignora-o e a corrida também. Mas todos pisam nas suas ruas calçadas. Da mesma forma, o outro povoado, após Estiva: nem sei o nome.

 

7)     No final, meus pés sem nenhuma bolha, sob os olhares dos organizadores da prova. Fiquei até temeroso de que pensassem que cortei caminho ou peguei carona. Isso é possível. Defendo que haja maior controle.

 

 

 



Escrito por Roberto Buzzo às 11h20
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O estelionatário

 

O ESTELIONATÁRIO

 

     O estelionatário tem mais de 60 anos e aparência sofrida. Mas é estelionatário, não há dúvidas. De alguma forma apoderou-se da carteira de identidade de outro senhor, trocou a fotografia e tenta receber a aposentadoria do outro. Foi bem sucedido na primeira tentativa, tentou novamente no mês seguinte e o Banco, já alerta, não pagou. E agora, no terceiro mês, eis ele ali, sentado no sofá, esperando que o sistema do Banco volte a funcionar...

 

     É um senhor realmente sofrido, baixo, magro – bem magro -, pálido, olhar apagado, queixo protuberante, nariz feio, pêlos na orelhas, sobrancelhas desproporcionais. Mas parece inteligente. Todo estelionatário é inteligente ou, quero dizer, mais inteligente que a maioria: menos bronco que a maioria, melhor dizendo. Antes de ser estelionatário é preciso ser cético, desacreditar da perspicácia alheia e colocar carimbos e filigranas em seus devidos e insignificantes lugares. E, convenhamos, para ser cétíco é preciso ir um pouco além do lugar comum.

 

     Ele está ali, calmo, no sofá, sob os olhares cônscios e furtivos de todos os funcionários do Banco. Já viveu mais de 60 anos, tem experiência,   no mínimo a experiência líquida do escorrer do tempo que não escapa a nenhum vivente. Essa experiência é inerente a todo velho, atestada pelas rugas e manchas e feridas e pêlos e marcas da pele e pelo olhar mais duro e mais frio à medida que o tempo passa. No entanto, está alí, dócil, querendo receber novamente, três meses após ter recebido um dinheiro suado que não lhe pertencia.

 

     É superior esse senhor ali no sofá, seus gestos comedidos em plena ação atestam. Nas poucas frases que pronunciou, sua voz se mostrou segura, com todos os graves e agudos previstos. Além de cético, todo estelionatário precisa ser ousado. E ter iniciativas. Mas o que um estelionatário não pode ser é irreverente. E esse senhor aí parece debochar da assistência. Seria um fino estilo de provocação?

 

     Ele está realmente tranquilo, não aparenta estar no centro de uma cena arriscada, parece não ouvir o fundo musical sutil mas trepidante da expectativa, parece não sentir a respiração suspensa da platéia. Entretanto, está de cabeça baixa, talvez tenha optado pela alienação do entorno, ou pense no próprio nome, incerto dentre tantos que usa, talvez pense no seu quarto escuro e imundo no fundo do cortiço, que o senhorio ameaça retomar por causa do aluguel atrasado, talvez relembre os três filhos e a mulher, que o têm por morto, e os amigos, desaparecidos no tempo, e os irmãos e os pais e a juventude, disformes na bruma das décadas. Talvez recorde o quarto fundo e imundo e escuro e provisório e vazio de qualquer referência que, mesmo assim, diariamente, o senhorio ameaça retirar-lhe.



Categoria: contos
Escrito por Roberto Buzzo às 19h14
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ultramaratona V

 

 

PERNAS? CÉREBRO!!

        

     E coração e pulmões e fígado para controlar os desgostos. E dedos e pele e olhos para descobrir o caminho. E ombros e panturilhas e rins, para arbitrar a enorme quantidade de líquidos que entram e que saem. Numa caminhada-corrida de 217 Km ininterruptos descobrimos a imprescindibilidade das partes mais obscuras do corpo. E esse conjunto funcionando a todo vapor esquenta e dá-lhe água, para refrigerar e dá-lhe cérebro, para controlar. O aspecto mental é tão importante quanto a parte física. Uma queda de motivação pode desencadear uma dor muscular capaz de imobilizar o atleta. Os cuidados com a hidratação, a alimentação, a insolação, a reposição de água e comida, a velocidade, exigem conhecimento prévio do caminho e da própria máquina e muita perspicácia.

 

     Minha participação na BR135 de 2010 foi correta, do ponto de vista motivacional. Tracei uma estratégia realista e a executei desde o início: trotar nas descidas, pisando leve e rápido, em passos curtos, para não sobrecarregar os músculos que dão sustentação ao corpo nas descidas, que quase me tiraram de combate nos últimos 5Km, dois anos atrás;  andar nas subidas e trechos planos, que pouco existem no Caminho da Fé. Uma velocidade média realista, que conseguiria manter até o final. A incógnita era o tempo mínimo necessário de descanso mas, baseado em conversas com outros ultramaratonistas mais experientes, resolvi arriscar, indo direto, sem dormir, apenas realizando pequenas paradas em momentos críticos.

 

     Ainda bem que não procurei saber quantos já tinham passado, no primeiro posto de controle, na base do Pico do Gavião. Porque dos 62 que largaram, 53 já haviam passado, ou seja, eu era um dos últimos (isso descobri dois dias após o final da corrida). Porém, esses 5Km ida e volta, do Pico do Gavião, permitem que tenhamos a posição exata de quem está até 2h na frente, pois enquanto estamos subindo, eles estão descendo e os encontramos. Naquela altura da corrida eu sabia que era um dos últimos, mas não estava preocupado com isso. Sabia que a hora da verdade seria após Inconfidentes, no trecho entre Borda da Mata e Estiva – o mais difícil do percurso. Entretanto, qual não foi minha surpresa ao retornar à base do Pico e encontrar vários corredores deitados, recebedo cuidados de suas equipes de apoio. Ali recebi minha primeira dose de adrenalina e suas primas, tanto que realizer importantes ultrapassagens antes mesmo de Andradas. Mas ao chegar no primeiro posto de controle, em Serra dos Lima, eu ainda era um dos últimos, embora já melhor colocado: 45º. Porém, só fui procurar saber a minha colocação no posto de controle de Inconfidentes. O controlador foi lacônico: “cerca da metade já passou”. Na verdade, 65% já havia passado.

 

     Segui em frente muito motivado, pois, apesar de praticamente não ter dormido, estava bem disposto e não tinha sono. E como eu havia previsto, cheguei ao posto de controle de Estiva em 20º lugar;  isso quer dizer que deixei 20 para trás nesse trecho. E não fiz nada de diferente em relação ao que vinha fazendo desde o começo. No momento de definição da corrida, quando entramos no trecho final de 43 Km, eu estava com a motivação elevada e continuava sem sono e bem disposto e com a musculatura respondendo bem. Dos dois aspectos críticos que costumam acometer os corredores nesse último trecho, ou seja, o descontrole mental e a fadiga muscular, eu estava seguro quanto ao primeiro e incerto quanto ao segundo.  Mas, como já disse, recebi outra dose cavalar de adrenalina, endorfina e todas suas primas na descida final, quando fachos das lanternas de outros corredores lampejaram na minha frente. Então ganhei mais três posições.

 

     Enfim, exceto nos primeiros quilômetros, não fui ultrapassado por ninguém, só ultrapassei. Como na vida, o insucesso alheio é o nosso alento.



Escrito por Roberto Buzzo às 19h28
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ultramaratona IV

COISAS DO CAMINHO DA FÉ

      4h da madrugada. Inconfidentes (MG) dormia. Menos uns jovens que iam e vinham com suas charretes em disparada, pela avenida principal. As ferraduras dos cavalos estralavam no asfalto. Duas horas antes eu passara por Ouro Fino e, esta sim, dormia completamente. Já falei da vila de Crisólia, que passara por volta de meia noite. É uma sensação boa, essa, de passar por um povoamento tendo por testemunha apenas as casas; parece que somos extra-terrestres, que nosso corpo é uma nave... só agora me dou conta de que perdi o nascer do sol na única noite que amanheci na estrada, estava na parada de Inconfidentes, chegara às 4h50 e, enquanto tomava banho, descansava meia hora e depois comia, o sol nasceu. Quando retomei, já era dia. Uma pena.

      No povoado de Barra passei às 10h da noite. Estava cheio de gente, os homens ainda jogavam bocha, numa cancha parcamente iluminada. Ali há também um campo de futebol, um bar, uma igreja e, certamente, uma escola;   e meia dúzia de casas. Pouco antes, no povoado de Serra dos Lima, havia uma festa, parecia casamento; muitos fuscas estacionados. Os moradores da região gostam muito do fusca, acredito que seja por causa do motor traseiro e tração nas rodas de trás:  isso evita que as rodas patinem nas ladeiras, pois naquelas íngremes subidas o  peso do carro se desloca quase todo para trás, diminuindo a aderência das rodas dianteiras.

      E o biscoitão? Nas padarias de Minas, ao lado dos escaninhos do tradicional pão francês há, invariavelmente, um escaninho para o biscoitão. O nosso conhecido biscoito de vento, que derrete na boca, vendido em sacos enormes, lá em Minas vira um biscoitão só; os componentes da massa parecem os mesmos, mas, talvez pelo tamanho, não derretem na boca, são mais consistentes e, em suma, aprovei. À base de polvilho, leves e nutritivos, ricos em carbohidratos do bom.

      Em Andradas tem vinho e café. Borda da Mata é a capital do pijama. Inconfidentes tem bordado. Estiva é a maior produtora de morango do Brasil, Consolação tem o segundo melhor clima. Por toda parte tem leite, os produtores resfriam o produto no próprio sítio, um caminhão-geladeira passa recolhendo(estou sabendo, um produtor me acompanhou por mais de 1Km empurrando sua carriola com 2 tambores cheios). Serra da Mantiqueira, sul de Minas. Muitas porteiras, pouca  frescura: mata-burros.       



Escrito por Roberto Buzzo às 19h37
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ultramaratona III

 

CHEGADAS E ENDORFINAS

 

Tudo bem que dentro do peito de um ultramaratonista tem um compressor no lugar do coração, mas isso não quer dizer que ele seja um desalmado, que ele não seja subjetivo, que não tenha suas paixões.

 

     Abaixa o facho, ó emo leitor, ó emotiva leitora. A subjetividade do ultramaratonista se chama endorfina. E outras inas... controladas por algo tão incorpóreo que só pode ser a alma. No meu caso, foram os fachos de várias lanternas titubeantes varando o mato lá longe na baixada.

 

     A minha meta era a praça da matriz da cidadezinha cujas luzes eu acabara de divisar lá embaixo, a uns 5Km de distância. Era coisa de uma hora da madrugada e o céu nublado tornava a noite escura, com a lua já no Japão. A minha lanterna vagabunda me iludia com uma mancha leitosa na minha frente, e o terreno irregular do piso do carreador espreitava ignoto a pisada dos meus tênis encharcados e barreados. Eu podia correr, mas tinha medo de torcer o pé num buraco. De repente, ao vencer uma curva, um automóvel clareava o caminho para um trôpego corredor, que avançava penosamente por causa das dores dos músculos que o sustentavam na descida. O problema da competição é esse: a desgraça alheia é o seu incentivo ou o seu consolo. Disparei, naquela estrada clara. Trezentos metros adiante, outro corredor, lento, de lanterna fraca; passei, batido, como se dopado. Nunca fora tão fácil conquistar duas posições tão próximo à chegada. Contudo, exultei quando vi, lá embaixo, mais dois fachos de lanterna, juntos. Naquele momento a natureza apressou sua injeção de endorfina e outras inas na minha circulação sanguínea e essas sustânças caíram em terreno fértil, encontraram sustentação. Declarei: vou buscá-los! Quando perceberam minha aproximação, aumentaram a velocidade. O homem competitivo não gosta de perder posição em lugar nenhum, mas, quase chegando, não admite. Cheguei a 100m deles e mantive essa distância por cerca de 1Km, aproveitando a claridade das suas lanternas. Numa situação assim, o desgaste emocional é todo de quem é atacado, de quem está na frente, algo parecido com o medo de assaltos: um rico tem mais medo que um pobre.  E eu, seguro de que poderia aumentar a velocidade; aliás, poderia aumentar muito mais, tamanha a dose que circulava no meu sangue.   Enfim, as ruas vazias de Paraisópolis assistiram, atônitas, à travessia em disparada de um ultramaratonista eufórico.



Escrito por Roberto Buzzo às 08h13
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ultramaratonista II

CRÔNICA ULTRAMARATÔNICA II

 

(supostos românticos ou sensíveis podem ter ficado escandalizados porque, na crônica anterior, chamei a lua de “lanterna natural”.   A explicação está na mesma crônica: dentro do peito de um ultramaratonista não bate um coração, mas um compressor).

 

     Taís, a da saúde, se mostrara preocupada com meus dedos frios, ao me examinar na Serra dos Lima. Por isso, quando a chuva começou, após Barra, faltando cerca de uma hora para a meia noite, pensei na preocupação da Taís com minha possível hipotermia. Mas sorri tranqüilo porque nunca tive hipotermia e não seria daquela vez, pois que eu estava com tudo sob controle e me sentindo uma verdadeira máquina sobre pés e, principalmente, com os dedos quentes, agora que o corpo trabalhava com vigor. De fato, aquele trecho, entre Barra e Inconfidentes, naquela madrugada, foi onde tive o melhor desempenho, desenvolvendo uma velocidade média de 6,3 Km/h. Não fora aquele copo de café...

 

     Pois bem. 2h da manhã e eis o povoado de Crisólia; coisinha bem arrumada, praça de um quarteirão, igreja no centro, jardins, bancos, chuvisqueiro, e vários corredores e seus apoiadores, alguns dormindo sob marquises, nenhum cidadão local, outros fazendo algazarra nas escadarias da igreja, sempre em silêncio, para não acordar os moradores todos que dormiam. Ao lado do carro, um casal de apoiadores se protegia sob uma das duas marquises da cidadezinha. Me aproximei e perguntei-lhes se a dividiam comigo;  não só a dividiram, como a mulher me ofereceu um copo de café; o café não estava feito, apenas a água estava quente, era café solúvel, desculpou-se a mulher. Não sei porque pedir desculpas por um copo de café tão gostoso.

 



Escrito por Roberto Buzzo às 08h26
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ultramaratonista I

 

CRÔNICA DE UMA ULTRAMARATONA

 

     (Talvez “Aventura ultramaratônica” soasse melhor. Mas quanto à veracidade da narrativa, acho que “Visões parciais de um ultramaratonista” é um título mais adequado.)

 

     A lua estava na fase inicial do seu quarto-crescente. Isso quer dizer que ela clareia pela metade e só até por volta das 2h da madrugada. Depois é sombra; em se tratando de céu nublado,- sem estrelas, portanto -, é mais que sombra, é...  breu para um materialista,  treva para um crédulo. Do lado do poente da lua, que é o mesmo lado do poente do sol, estava o longilíneo e imponente espigão da Serra do Caçador, que eu havia transposto antes da meia noite, após sair de Estiva (MG) às 19h. Ele iria engolir a lua daí a pouco e eu aguardava esse encontro, apreensivo. Aquele paredão do oeste já havia consumido meus músculos numa ladeira sem fim e agora fustigava minha mente apressando a escuridão que eu temia. Não, não era medo dos vampiros que infestam aquela região – vampiros de verdade, que chupam o pescoço da gente -, pois, para isso, a organização da prova providenciou a cada um dos participantes uma estaca de madeira com peso, tamanho e ponta adequados; não era medo dos cachorros nem dos rebanhos bovinos que dormiam no meio da estrada; não era medo das corujas e curiangos em seus vôos curtos e ganidos soturnos; não era medo dos olhos dos bichos no meio da mata, nem dos arbustos que pareciam lobos; não era medo das almas penadas que rondavam suas cruzinhas fincadas na beira da estrada, testemunhas do local exato das suas mortes em tempos remotos ou nem tanto; não era medo de nenhum ladrão ou malfeitor, pois que naquele mundo só tem gente boa. Era medo dos buracos que poderiam provocar uma torção e acabar com a minha corrida, buracos esses que a minha lanterna vagabunda não descobria; era medo de me perder, de passar  batido numa quebrada do caminho, mal sinalizado com poucos e minúsculos pontos refletivos que a minha lanterna vagabunda de foco curto e amplo não alcançava; era isso que me fazia espectador atento do mergulho final daquela potente lanterna celeste atrás da serra e eu lamentava que outros usuários do Brazil ainda usufruiriam daquela luz natural por mais tempo que eu, desde que estivessem 3h atrás de mim, do lado oposto do espigão. Era um acompanhamento minucioso, eu olhava diretamente no céu e conferia o avanço da sombra na ladeira que eu tangenciava, preparando-me para a derradeira subida e sabendo que ali naquele pedaço havia ilógicas mudanças na rota do Caminho da Fé, que já consumiram as últimas reservas mentais de muitos ultramaratonistas, levando-os à perda da compostura. E eu com a minha ecológica e levíssima e muito boa lanterna para ambientes fechados, morrendo de vontade de pinchá-la fora no meio do brejo à esquerda, com toda a minha força e destreza de um excelente atirador de pedras. Contudo, a razão preponderou: ruim com a lanterna, pior sem ela. A razão, arma maior de um ultramaratonista. (sim, porque ultramaratonista não tem coração dentro do peito, tem compressor).



Escrito por Roberto Buzzo às 08h56
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outra canção do exílio

OUTRA CANÇÃO DO EXÍLIO

 

Minha terra tem areias,

Minha terra tem argilas,

Minha terra tem formigas,

Minha terra tem gramados onde caça o tamanduá.

(me importa a majestosa maior medida do tamanduá-bandeira).

 

Minha terra tem dureza,

Tem natureza,

Tem a casa bela e grande e sólida da memória de meu pai.



Categoria: POEMAS
Escrito por Roberto Buzzo às 11h11
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a gostosa da uniban

A GOSTOSA DA UNIBAN

 

     Algumas mulheres que conheço não gostam do adjetivo “gostosa”. Eu, se fosse mulher, gostaria muito de ser chamada de gostosa. Dorival Caimi disse que, se fosse mulher, seria “dadeira”...

 

     A gostosa da classe C menos, da Uniban. Classe C menos, coisa de publicitários. Quase todos nós não imaginamos o tratamento que nos dão os publicitários. Na minha casa tem geladeira com freezer. Essa circunstância pode determinar que sou classe B mais ou B menos... Acabo de ler um romance italiano em que o autor protesta contra o fato de que fomos – os humanos – transformados em produtos que consomem outros produtos. Antes, num aeroporto, éramos chamados de passageiros, agora somos chamados de clientes. A relação comercial avança sobre nossos recônditos redutos.

 

     Esse episódio da aluna sensual da Uniban trouxe à tona um emaranhado de questões aparentemente diversas, mas que se cruzam, formando um entroncamento complexo de vias. Isto,  aqui na minha cabeça... Por exemplo, me vem questões como os 3 milhões de fiéis neopentecostais que foram às ruas de SP no penúltimo final de semana, o último ex-presidente dos EUA, que só leu 2 livros na vida: O vermelho e o negro; o nosso atual presidente, que nunca leu nenhum,  e um meu colega que estuda na Letras da USP no 3º ano e que acabou de ler o seu 1º livro na vida, exatamente aquele em italiano acima referido.

 

     É uma infinidade de episódios isolados no tempo e no espaço que me vem à memória, indicativos dos sólidos preconceitos de classe que vigoram entre nós. Nos jornais de hoje, representantes da bem-pensante “elite intelectual/cultural” riem de supostos termos errados falados por alunos da Uniban que foram à TV. Os alunos da Uniban pagam 200 reais por mês e pertencem à classe C menos... Os neopentecostais são, em sua maioria, pobres ou novos-ricos, gente traumatizada com questões materiais de sobrevivência. A nossa “elite” sempre foi muito bem alimentada...

 

     Ontem, a nossa elite foi lá na porta da Uniban manifestar-se contra o ato atrasado da Escola, em expulsar a mulher sensual, a loira gostosa. Gente da UNE, das centrais sindicais,  dos órgãos do governo, da imprensa...  Uns 200.   Foram vaiados por cerca de 800 alunos da Uniban.  Esse confronto é emblemático do que tenho tentado esclarecer: o conflito entre duas visões de mundo:  a visão da “elite”  e a visão da “não-elite”.

 

     Como se sabe, o maior desejo da “não-elite” é entrar na “elite”. No Brasil, desde o império, isso só era possível através do puxasaquismo (pensando em termos amplos) – a política do favor, do jeitinho. Nos últimos tempos, esse zé-povinho que tem geladeira sem freezer parece que tem tentado construir formas alternativas de ascensão social: a organização independente: esse zé-povinho agora tem a sua própria religião e – está claro – a sua própria escola e até a sua própria TV (v.conflito Record x Globo). Um parêntese para explicar a força eleitoral de Lula: ele transita bem nos dois mundos. De um lado, os bem-pensantes católicos e os estudantes da USP; do outro lado, os discípulos dos demônios Edir Macedo e Bispa Sônia e os estudantes da Uniban. Quanto à classificação da qualidade do que pensam ambos os grupos, é apenas questão de ponto-de-vista, de juízo de valor, de maior ou menor prestígio social baseado no poder da grana. Fico pensando quão sensual não deve ser a visão da canela de uma muçulmana, para um macho muçulmano...



Escrito por Roberto Buzzo às 10h12
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momento econômico

“PUTAQUEOPARIU, COMO TÁ DIFÍCIL ARRUMÁ GENTE PRA TRABALHÁ”

 

     Ouvi essa frase aí em cima enquanto corria no parque. Eram dois homens, caminhavam, captei a frase enquanto passava por eles. Nem olhei pra trás para conferir o tipo. Já tinha ele pré-concebido. Era um senhor de meia idade, alto, barriga protuberante, cabelos grisalhos, meio careca, branco, dono de uma pequena empresa. Perdera algum empregado, precisava substituí-lo, estava difícil. Quase voltei para perguntar-lhe quanto ele estava pagando, quais eram as condições de trabalho. As micro e pequenas empresas sofrem para arranjar trabalhadores minimamente qualificados porque, normalmente, têm condições de trabalho e salários piores que as grandes, além do patrão muito próximo, que geralmente contribui para deixar o ambiente muito carregado. Poucos empregados gostam de patrão e quando gostam, quase sempre é só aparência, conveniência. Nas grandes empresas, a relação é mais impessoal, mais profissional, ninguém é mortalmente humilhado, as diretrizes, inclusive as demissões, vêm de cima, de um ente incorpóreo ou coletivo, não se identifica um dono que se possa matar.

 

     Trabalhar numa firminha não é bom. Imagina uma empregada doméstica ou um motorista da família?  cujo trabalho é junto ao patrão pela própria natureza. A doméstica é pior, porque está junto do patrão e do seu último reduto. Esses pequenos patrões sempre sofreram, porém sofrem mais em épocas de economia aquecida, em que o exército de reserva diminui, os desesperados por trabalho a qualquer preço escasseiam. Sofrem para manter ou repor a mão-de-obra que, por ser pouca, dada a pequena escala do negócio, provoca grandes desconfortos quando falta. Em vários casos, o próprio patrão tem de botar a mão-na-massa, o que, para alguns, é motivo de desespero.

 

     O senhor do parque, com sua pança e nenhuma habilidade para iniciativas práticas, especialmente quando envolvem encaminhamentos subalternos de natureza burocrática ou manual, pela falta de treino e pelas pretensões aristocráticas, está desesperado. Senão, como explicar o putaqueopariu? Reclama que ninguém quer mais trabalhar por um salário mínimo, maldiz o seguro-desemprego,  diz que nunca viu tanta gente aposentada, xinga o  governo, com suas bolsas para tanto vagabundo... e, já que está falando mal do governo, diz que não aguenta mais tanto imposto, tanta burocracia, tanto sindicato, que está cansado de sustentar vagabundo.  Ele acaba de comprar um ford Ka para o filho mais velho, que completou 18 anos e entrou na faculdade esse ano. Aproveitou o IPI reduzido. No início do ano já comprara um melhor para a mulher e trocara o carro da família, com o qual viaja todo final-de-semana para o sítio em Ibiúna. Do jeito que as coisas vão, vai ter de se contentar com a rotineira viagem de férias a Miami, em julho, não vai dar pra passar duas semanas na Grécia, como havia planejado.



Escrito por Roberto Buzzo às 10h43
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marcha para Jesus

Marcha para Jesus.       Marcha para Jesus 2009   ou   Momento Sociológico:

CURUPÁ, EMBLEMÁTICA

  

     Curupá é uma grande vila ou uma pequena cidade, dependendo do ponto de vista. Legalmente é uma vila do município de Tabatinga. Lá existe uma divisão muito clara no espaço entre os “ricos” e os pobres (digo “ricos” porque em terra de cego, quem tem um olho é rei). Passei por lá no domingo cedo, hora da missa, a igreja no centro da área nobre, as portas abertas, quase toda a população “de bem” estava lá rezando, via-se de longe: um candente quadro simplório.  Já na área pobre – uma carreira de precárias casas de tijolo que se estendem por mil metros ao longo da estrada vicinal -  localizam-se as igrejas pentecostais, dos deserdados da terra.  O sol da manhã esquentava o frio e o povo pobre aproveitava, não era preciso pagar pela felicidade; as casas são muito pequenas e praticamente não há quintal. Os homens, as crianças e os jovens passam o tempo na rua, por falta de espaço privado, enquanto as mulheres preparam o almoço. Na parte nobre da cidadezinha, a rua estava deserta - um pouco por causa da missa e outro pouco por causa das casas espaçosas e enormes quintais arborizados, onde até pequenos animais é possível criar. Por isso, somente os pobres testemunharam a passagem deste andarilho por Curupá.   (que algum míope e mais fervoroso daqueles fiéis poderia confundir com Jesus, dada a barba comprida, a magreza do rosto e o olho claro e vidrado de fé).

 



Escrito por Roberto Buzzo às 09h48
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Amor, amantes e ciúmes

AMOR, AMANTES E CIÚMES

 

     No Brasil, não dá pra deixar de citar nosso primeiro imperador,  quando se trata de semelhante tema. O cara teve 19 filhos com 8 mulheres diferentes, além de 2 esposas buscadas em cortes européias. Desses filhos, alguns nasceram mortos, outros morreram ainda pequenos, mas dois deles se tornaram reis, um do império do Brasil e outra do reino de Portugal, e reinaram por muitos e muitos anos. Dentre as mães, francesas, uruguaia, portuguesas, incluindo uma freira, além das brasileiras.

 

     Não pense que a mulher dele, a Leopoldina, era uma barata tonta, daí porque ele deitava e rolava com outras. Nada disso, a Leopoldina era uma austríaca danada também, teve sete filhos com ele, inclusive o nosso Pedro II e a Maria, rainha de Portugal. E controlava e cuidava e tinha crises terríveis de ciúmes. Certa feita, mandou o ajudande de ordens encaixotar todos os pertences do imperador e transportar para a casa da marquesa.

 

     A marquesa... a Domitila! Era uma paulista de 25 anos... Ela ia indo pelas ruas de São Paulo, numa cadeirinha. Era uma manhã ensolarada de temperatura amena, mas agradável, coisa difícil de acontecer em 1822 ali na colina do Carmo, ainda mais em agosto. O normal era o tempo fechado, a famosa garoa, o frio úmido, o vento cortante vindo da zona leste. Acho que era por isso que ela ia na cadeirinha, carregada por dois escravos, porque se ela soubesse que ia fazer aquele tempo luminoso, teria ido a pé, até porque havia um famoso garanhão na cidade.

 

     Naquela mesma manhã e na mesma colina do Carmo em que a Domitila passeava em sua cadeirinha,  o príncipe D.Pedro e toda sua assessoria, montados em seus cavalos cariocas, passavam frio, que para os cariocas era frio. O príncipe a viu e precisou descer do cavalo e é certo que começou a suar. Arredou a cortininha da cabine da viatura da Domitila... e seu fluxo sudoríparo aumentou. Pediu licença a um dos escravos para assumir seu posto numa das extremidades dos varais, “para sentir o peso do continente e do conteúdo”.

 

     O fato é que, em 29 de agosto de 1922, a Domitila era recebida nos aposentos do príncipe, à rua do Ouvidor. Lá fora garoava...  E não pense que a Domitila era uma mulher fisicamente deslumbrante. Fora casada com um alferes, que lhe deu duas facadas, certa feita, quando, já separados, a encontrou com outro; parece que já tinha filhos. O que a Domitila tinha era um certo sabor paulista...

 

     Como se sabe, nove dias depois o príncipe libertava o Brasil das garras de Portugal e se tornava nosso primeiro imperador. A explicação para tamanha bravata era a energia que o amor de Domitila acrescentava-lhe. Porque, ao contrário de certa sabedoria popular, o sexo acrescenta energia aos amantes que, assim mais poderosos, ousam e criam mais – é só lembrar de Romário e suas noites concentradas com a amante, durante os jogos da copa de 1994 nos EUA.

 

     Enfim, o imperador levou a Domitila e a instalou numa espaçosa casa nos arredores do palácio imperial, no Rio de Janeiro. Ela, por sua vez, foi aos poucos, agregando parentes e protegidos e traficando, traficando... influências. Sim, todo mundo só fala de cocaína, maconha, ninguém fala dessa outra droga tão abominável quanto, chamada “Influência” com “c”, que não tem nada a ver com gripe.  Porque, se onde tem casamento tem interesse financeiro, imagina onde tem amante. Porque o sexo, apesar de intangível, sempre foi uma mercadoria muito..., perdão, palpável. Sete anos depois, rica, voltou pra São Paulo  com dinheiro acumulado suficiente para praticar a benemerência até morrer de velha – uma precursora das senhoras católicas de Santana, parece. Evidente que arranjou um paulista ilustre para marido. O imperador, por outro lado, voltou para Portugal, pegou tuberculose e morreu aos 36 anos, no mesmo quarto em que nasceu. Bem... eu só queria reclamar do trabalho que as mulheres nos dão.



Escrito por Roberto Buzzo às 12h09
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o mala

O MALA

 

     Veja só o nome do sujeito: Malatiel.  É um cara doente de chato. É daqueles que, antes de viajar, leva o carro na oficina para revisar os freios, pneus, sistema elétrico, tudo conforme recomenda os guias de viagens dos jornais. Quando ele compra uma máquina de fazer pão ou uma batedeira ou um aparelho de som ou qualquer outra bugiganga dessas em voga nas casas bahia, fica até tarde da noite lendo o manual e o segue direitinho até a data do descarte do eletrodoméstico. É daqueles que acredita na conversa do mecânico da lava-roupas, de que “essa sua brastemp velha é que é boa, essas novas de hoje-em-dia não valem nada”.

 

     Ainda bem que esse Malatiel é funcionário público, porque do contrário, já estaria no olho-da-rua há muito, pois está sempre em “operação-padrão”. Você sabe, aquele tipo de operação-tartaruga que grupos de trabalhadores costumam desencadear para pressionar o patrão em alguma negociação sindical:  resolvem cumprir à risca as normas da empresa. Pois é de domínio público que nenhuma organização funciona se seus empregados cumprirem rigorosamente suas próprias normas. Pois esse Malatiel, sem saber, vive em eterna operação-padrão, para desespero dos seus colegas.

 

     Esse Malatiel é casado. A mulher dele deve ser muito diferente dele, senão já teriam se separado. Eu acho que a mulher dele só o suporta porque ele alimenta o ego dela com suas preocupações simplórias.  Imagine que ele não hesita em ligar para aqueles telefones divulgados pelas grandes empresas em seus veículos – os chamados telefones dedo-duro – quando assiste a qualquer manobra ousada de um desses veículos. E liga várias vezes para elogiar também, quando constata a circunspecção do motorista, liga para elogiar o sapato engraxado, a roupa bem passada, o cabelo bem aparado do motorista. Liga do próprio celular – após estacionar o carro, é claro...

 

     E é caprichoso, o Malatiel.  Pede para ver todos os comprovantes de recolhimento de contribuições às instituições de caridade, prometidas naquelas plaquinhas em certas fachadas, caso seus muros e paredes sejam poupados pelos pichadores. Justifica dizendo que cuida dos interesses das instituições e da credibilidade das comunicações públicas.

 

     Outra coisa que o Malatiel não deixa passar é um alarme disparado de veículo. Aqueles do tipo “este veículo está sendo roubado; ligue para 0800 ......” Ele liga sempre, avisando a seguradora.  Às vezes, liga antes, quando percebe algum suspeito rondando algum carro; aproveita e liga para todos os telefones que costumam ser divulgados nesses alarmes disparados, pois tem todos arquivados numa pasta especial em seu celular. É claro que ele concordou com a instalação de uma potente sirene na portaria do seu edifício, para ser acionada em caso de assalto e é claro que ele acha o máximo aqueles refletores que disparam na cara de quem está passando na calçada em frente ao prédio.

 

     Nem é preciso dizer que o Malatiel nunca pisa na grama, nem trafega pelo acostamento, nem mistura ovo com manga, nem mata beija-flor.  Jamais ultrapassa a velocidade permitida, respeita todas as placas de trânsito e fica puto quando encontra uma não condizente com a realidade. É assíduo frequentador das colunas de leitores dos jornais e dos serviços de ouvidoria. Obedece rigorosamente a todas as leis, incluindo as carcomidas. Adere com entusiasmo a todas as propostas de quem está no poder.

 



Escrito por Roberto Buzzo às 00h16
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consumo & cidadania

CONSUMO & CIDADANIA

 

Ou, Homens & Cachorros.

 

     Domingo ensolarado, após um sábado chuvoso. Ar limpo, pouca gente na rua na primeira manhã do horário de verão – uma hora a menos na vida -, temperatura agradável, vesti meu uniforme mais leve de corrida e saí para meu tradicional treino longo semanal de 2 horas pelas ruas da cidade. No posto da esquina um homem abastecia seu peugeot – um carrinho pequeno, com desenho agressivo. O homem se parecia comigo há vinte anos, estava visivelmente feliz em volta do seu carrinho mil, aquele homem deve ter vindo do interior, de uma família pobre, mas, muito esforçado, inteligência ligeiramente acima da média, apoiado pela família, saúde perfeita, arranjou um emprego de funcionário público num concurso... enfim, eis o homem ali, na bomba de gasolina, abastecendo seu peugeot, com o topete bem aparado, a barba feita, se sentindo dentro do mundo.

 

     Passei.

 

     Desci a brigadeiro, cortei por dentro da Bela Vista, peguei um pedaço do Bixiga, saí na frente da câmara dos vereadores, cruzei a praça da bandeira pela passarela, saí lá no centrão, na Líbero Badaró, corri ela toda, cheguei no Largo de São Bento, início do Viaduto Santa Ifigênia. É um viaduto bonito por baixo e por cima, muita gente gosta dali para usar como cenário de fotos e filmes, vários posavam. Atravessei o viaduto e a rua toda, a Santa Ifigênia – paraíso dos computadores -, deserta, ainda com vestígios de água da chuva da véspera, saí na frente da antiga rodoviária, virei à esquerda na Duque de Caxias, cruzei a praça Princesa Isabel, aquela do Duque a cavalo, cortei o Campos Elíseos e a Barra Funda pelo meio, saí embaixo do Minhocão quase no fim, perto do parque da Água Branca.

 

     No parque, bebi água, que lá tem excelentes bebedouros. Muita gente andando e falando ao telefone. Um homem cochilava sentado num banco, todo encapotado, parecendo à espera da morte, atrasada. Três mocinhas andavam de salto alto e beiços pintados de vermelho, mas não eram putas não senhor, que eram mocinhas de família, que a gente conhece pelos trejeitos e, principalmente, pelo olhar, que as putas também são mocinhas de família, porém ausentes ou dementes e elas andam sempre assustadas, susto esse insuspeitado no jeito maneiroso do comportamento, mas concreto ali no fundo quente do brilho dos olhos.

 

     Continuei.

 

     Atravessei o parque, cruzei a avenida Antarctica sobre a passarela, contornei o grande quarteirão do Palestra Itália, onde logo mais haverá Palmeiras e Flamengo, muita gente nas imediações com a camisa verde da Fiat, da Case, da Samsumg, até da Parmalat. Muitos jovens de topetes moldados ao creme, alguns homens barrigudos, vários carecas, crianças, todos de verde. As baterias de camelôs de camisas e bandeiras e faixas e flânulas e chaveiros e fitas e uniformes e porcos e periquitos – tudo verde – já se instalavam em pontos estratégicos para a grande batalha da tarde. Ah, sim, havia também cores azuis e amarelas, poucas, que isso a Física explica: a mistura de azul e amarelo dá verde.

 

     Voltei.

 

     Na hora de subir no elevador,  ofendi gravemente um vizinho. Acho que ofendi. Ele vinha com seu cachorro, de um passeio na rua, perguntou se podia subir comigo no mesmo elevador. Eu, todo suado, e muito solícito, disse que sim, “que provavelmente eu estava mais fedido que o cachorro”. Pois o homem, no intervalo de tempo até o 4º andar, falou três vezes que a cachorra fulana de tal não fedia não, que, às vezes, na 6ª feira, véspera do banho semanal, mas muito dificilmente, era muito cherosinha, sabe como é, só fica no apartamento, não vai na terra, é muito cherosinha a fulana de tal, ela não incomoda não, é muito fofa, muito cherosinha...

 

     Não tive tempo de avisar ao vizinho que sou dum tempo e dum lugar em que automóvel e telefone e máquina fotográfica e até televisão só tinha na casa de rico, computador só tinha em grandes empresas. Cachorros havia sim senhor. Lá fora, fedorentos todos. Lá dentro, homens, ávidos de cidadania, desavisados, prontos pra comprar gato por lebre.

 

    



Escrito por Roberto Buzzo às 14h47
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