CRÔNICAS PAULISTAS.


Purgatório

     PURGATÓRIO

      Eu ia indo pela calçada da Brigadeiro, debaixo de um dezembro mixuruco de sol fraco, quando veio ao meu encontro um senhor de aparência respeitável e, parecendo que havia me escolhido deliberadamente em meio ao fluxo caudaloso de pedestres, entregou-me com alguma solenidade um papelzinho impresso. Pelo panfleto, ele me perguntava se eu era reto ou se eu era ímpio.

      Poxa! isso é quase um xeque-mate. Ímpio, ímpio... êta palavrinha! Comecemos com a mais fácil: Reto. E me ponho a examinar minhas partes. Nenhuma quina, nenhuma reta, só curvas, tudo torto. Não, reto eu não sou não senhor. “Então você é ímpio!” Ímpio, meu senhor?, pergunto-lhe, ansioso. Isso é grave? “Gravíssimo!”, confirma ele, feliz por ter encontrado alguém a ser trabalhado.  Mas meu senhor, somos assim tão simplesmente divididos? “Não tenha dúvida, meu jovem, tudo é muito simples, há dois governantes no mundo: Deus e Satanás. A qual dos dois você serve?”

      Aqui eu quase tive um piripac, primeiro pela expressão “meu jovem”, que é um desses sintagmas que denotam arrogância, assim como “eficiente e eficaz” que denunciam a intenção embromatória do orador. (Se você estiver numa plateia a ouvir um discurso e, de repente, o orador lascar um “eficiente e eficaz”, não tenha dúvida:  você está sendo enrolado). Segundo, pelo “não tenha dúvida”, que é outro sintagma manjado usado pelos vendedores em geral, súditos dos seus gráficos de produtividade, que confundem jesus com genésio insensata e naturalmente. Sim, eu quase tive um ataque, porque o distinto senhor teimava em me considerar um simplório cliente.

     Mas, estava jogando, continuei: nem oito, nem oitenta, nem reto, nem ímpio, meu senhor, exijo alternativas. Não sei se ele estava se irritando com meus sucessivos “meu senhor”, o fato é que ele era, de verdade, um senhor respeitável... Mas aí já me irrito comigo mesmo, com essa insistência em adjetivar a aparência do senhor. Por que respeitável? Só porque usava camisa branca de colarinho, calça cinza de tergal, sapato preto engraxado? Só porque não exibia nenhuma tatuagem, tinha o cabelo curto e penteado e havia feito a barba antes de sair de casa? Sómente porque segurava escrupulosamente uma pasta quadrada tipo 007? Só porque flexionava todos os verbos e conjugava todos os pronomes? Só porque era branco?

     “Meu jovem, há dois caminhos: o estreito e o largo”. Aí eu, já casca dura, e já preouvindo aquela ladainha de bem e mal, céu e inferno, e farto daquele maniqueísmo, tentei pegá-lo no contrapé: Êpa, alto lá! E o Purgatório?

     O distinto senhor – e notem a ironia desse meu “distinto”, que a essa altura havia se esvaído toda minha condescendência – ficou visivelmente atrapalhado, como esses bonecos que, de repente, têm as pilhas descarregadas e param no meio do movimento. Ele havia decorado todo o trecho e, diante do interlocutor que atravessa o diálogo, requeria tempo para retomar a cantilena: “Como eu estava dizendo...”, tentou retomar, mas não deixei:  Você está sendo mais realista que o rei. Eu exijo o Purgatório. E agradeça, porque estou sendo modesto. Quero apenas mais uma alternativa. Meu senhor, não deixo por menos: em respeito à Comédia, exijo o Purgatório!



Escrito por Roberto Buzzo às 20h58
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O CONSUMISMO EM CUBA

 

     Cuidado, é “consumismo”  e  não  “comunismo”. Consumismo, de consumo...

 

     Nunca estive em Cuba... (sou interrompido por um leitor):

 

     - Se v. nunca esteve em Cuba, por que se mete a escrever sobre um lugar que desconhece? – Você vai fazer como os papagaios, que só repetem o que seus donos ensinam?

 

     Caro leitor, entendo sua preocupação, você deve estar de saco cheio dessa ladainha ideológica, uns puxando para um lado, outros puxando para o outro. Em princípio, você tem razão, mas, por favor, seja indulgente comigo, conceda-me... afinal, eu cresci ouvindo esses comentários. Prometo utilizar, nos argumentos favoráveis à Ilha, os conhecimentos de Frei Beto – grande conhecedor do país, já escreveu “Fidel e a Religião”, viaja constantemente pra lá, é amigo de cozinha do Fidel e de meio mundo lá. Já quanto aos argumentos contrários, utilizarei comentários dos colunistas dos grandes jornais e revistas brasileiros, encontráveis em quase todas as edições ao longo dos últimos cinqüenta anos...

 

     Nunca estive em Cuba ou em qualquer outro país. Nem no Paraguai. Nunca saí do meu país, como a esmagadora maioria dos brasileiros, dos argentinos, e ... dos cubanos. (aqui já cutuquei um dos argumentos contrários a Cuba: o de que os cubanos não podem viajar para o exterior). Esse aviso tinha a intenção inicial de alertar o leitor para desconfiar do meu comentário que se seguiria, mas a interrupção do leitor e a minha resposta já cumpriram essa finalidade.

 

     Quanto aos dois verbetes que aparecem no primeiro parágrafo, comecemos pelo segundo: comunismo. Meu avô tinha muito medo do comunismo. Para ele, o comunismo promoveria a liberação dos costumes, viraria a moral de cabeça para baixo, acabaria com a família, com o respeito aos mais velhos, confiscaria seus poucos hectares de terra, prenderia os padres,  enfim, instituiria a pouca vergonha, além de comer criancinhas... O meu avô nunca se referia aos comunistas, sempre se referia ao comunismo. E o interessante é que, passados tantos anos da prática desses regimes administrados pelos partidos comunistas, o que se vê – nessa questão da revolução dos costumes – é o contrário: quem instituiu a “pouca vergonha”,  segundo meu avô,  foi o sistema capitalista e o seu consumismo. De fato, viajantes relatam que os povos da Europa Oriental, da Rússia, da China, de Cuba, são mais conservadores nas questões morais e têm um lado espiritual mais desenvolvido, ou seja, são menos materialistas e mais conservadores nos costumes.

 

     Certa feita, um jornalão brasileiro perguntou a Frei Beto qual país era melhor para se viver: Brasil ou Cuba? Eu cresci assistindo ou lendo essas provocações. Frei Beto era constantemente provocado, devido seu público apoio ao regime cubano. A ultra-direita brasileira não o perdoava, porque ele desarmava um dos seus principais argumentos contra aquele regime: o materialismo, no sentido de não incentivar a prática religiosa -  afinal, Frei Beto era e é um religioso... O Frei safou-se com a seguinte resposta: para os ricos brasileiros – coisa de 5% -, Cuba seria o Inferno; para os remediados – cerca de 25% -, Cuba seria o Purgatório e, para os demais, Cuba seria o Paraíso. Sim, estamos falando de consumismo em Cuba. Interessante notar que tanto os favoráveis quanto os contrários a Cuba concordam que lá não há consumismo. Os primeiros dizem que não há porque o regime não permite, que é contra os seus princípios...; os segundos dizem que não há consumismo porque não há produtos à venda e a população não tem poder aquisitivo. A propaganda anti-cubana tem batido nessa tecla. Vira e mexe e ficamos sabendo que um jovem cubano desejaria muito comprar uma calça Lee, um tênis Nike, um disco do Michel Jackson, um celular,  um óculos ray ban, um piercing, uma tatuagem, uma coca-cola... parece que ambas as partes têm razão. Então, se isso for verdade, é só uma questão de escolha.

 

     Seria, então, de escolher: com consumismo ou sem consumismo. Com consumismo é isso que você, classe média brasileira, conhece: São Paulo com 11 milhões de habitantes e 6 milhões de carros (+ 800 novos por dia), é bugiganga de todo tipo na 25 de março, é Mequidonald em toda esquina, é Shopping Center com seguranças engravatados, é v. sorrindo, porque está sendo filmado, é v. sendo fotografado por câmaras digitais até quando está cagando, é v. ouvindo a conversa do vizinho falando ao celular, é o flanelinha, é o malabarista nos faróis, é o carro blindado que quase atropela o seu carrinho, é o olhar atônito, é o isolamento, é a diferença, é a esperteza, é a escola paga, o plano de saúde pago, a previdência paga, o mendigo, o pingente, a puta, o vigarista, o assaltante, a polícia, o PCC, é o carro novo do vizinho, a mulher nova do vizinho, os peitos novos da vizinha, o cachorro-quente, a coxinha, o metrô atrasado por um suicida, as duas horas pra ir e outras duas pra voltar, é a gloriosa seleção de futebol, é a novela de primeiro mundo, é o Jornal Nacional.

 

     Sem consumismo é o seu filho de pé no chão, jogando bolinha de gude ou pião ou bola-de-meia, é a sua filha brincando de roda ou boneca de pano, é os filhos do vizinho entrando na sua casa sem bater, é a molecada andando aos bandos longe dos pais, é a conversa prolongada no portão, é o jogo de malha, de bocha, é a rua de cima contra a rua de baixo no campinho, é o programa chato na TV, é a bicicleta, a charrete, o cavalo, o trator, é o casados contra solteiros no futebol, é a procissão, a quermesse, a roda de samba, de chorinho, de viola, de truco, de causos, é o livro, a banda de música, é a orquestra, o artesão, é o arrasta-pe, é o quintal com horta e mangueira, é o corguinho piscoso, é o cheiro da terra molhada, é o bonde, o troleibus, o trem, o barco a garrucha, a cartucheira, o estilingue, é a roupa feita sob medida, é a camisa de estimação, é o relógio que passa de pai pra filho. Sem consumismo é muita miséria, retruca você. Sem consumismo é o que a gente vivia nos anos cinqüenta... Ah, boa lembrança. Que tal aquela vida acrescida de analfabetismo e desemprego zero, escola  e assistência médica boas e de graça para todos e assistência à velhice garantida pelo governo? Presídios? Pouquíssimos: somente para os dissidentes do regime (rsrsrs).



Escrito por Roberto Buzzo às 21h04
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Guerra

GUERRA

      Há meia hora um helicóptero paira sobre o prédio em que trabalho, na avenida Paulista. Na calçada em frente, o rio de pedestres escorre com dificuldades entre inúmeras viaturas da polícia estacionadas. Há suspeita de bomba na agência bancária ao lado. Antes-de-ontem, no xig-lig da esquina,  seguranças do estabelecimento entraram em confronto com guardas municipais, para impedir duvidosa fiscalização. Outro dia, um pedestre foi executado por dois motoqueiros, enquanto caminhava na calçada em frente. O esmoler profissional que faz ponto ali perto da banca de jornal recolhe a moeda ou a nota tão logo é depositada em sua caixa de papelão, para evitar sócios mãozudos. Quase em frente, as revistas e jornais pendurados desinformam, para confundir o inimigo. Em cada quadra da avenida, caminhando na hora do almoço, encontro duas ou três duplas de policiais militares.Os policiais portam pistolas ponto quarenta, algemas, cacetetes, sprays venenosos, vários aparelhos de comunicação, e estão vestidos com coletes à prova de bala. Nas esquinas há sentinelas postados em guaritas elevadas. A todo momento passam viaturas abrindo caminho no grito, levando feridos ou acudindo ataques. A avenida está completamente tomada por batalhões de pedestres em marcha em ambas as calçadas e por veículos nas faixas de rodagem. Entre os caminhantes, ninguém se arrisca a usar joias e quase todos portam aparelhos de comunicação móvel. Dentro dos carros não se vê ninguém, por causa dos vidros escuros. O entrevero propaga-se pelas paralelas e transversais. Os carros, cada vez maiores, se trancam blindados, autosuficientes em seus sistemas de ar condicionado, contra abordagens especializadas nos faróis. As casas cada vez menores, se amontoam em prédios de apartamentos, para facilitar a defesa, isolados por grades encimadas por fios energizados ou por muros com rolos cortantes em cima. Vigilantes tristes expreitam o entorno, de dentro de cabines com vidros escuros, nas portarias. Se é noite, fachos de potentes luminárias disparam na frente de cada prédio à medida que o pedestre vai  passando, comandados por células de presença. Câmaras filmadoras estão penduradas nos beirais, nos postes, nos portões, nos satélites, profusamente instaladas pelo poder público e pelos particulares, cobrindo completamente exteriores e interiores domésticos e comerciais. Monitores remotos complementam a vigilância presencial pública e privada. As motocicletas são consideradas eficientes veículos táticos e por isso é proibido levar alguém na garupa.

 

      Entro no meu Banco, preciso de dinheiro vivo para pagar pequenas contas. A porta detecta metais comigo, suficientes para fabricar uma arma. Sou obrigado a me despojar de moedas e chaves e então descubro que posso matar alguém com a fivela do meu cinto. Dentro do Banco não posso usar o celular, porque sou suspeito de pertencer a um comando de assalto e passar estratégicas informações aos meus parceiros postados lá fora. Pelo menos dois vigilantes armados me observam, enquanto digito minha senha junto ao caixa.  Ao sair, sou retido momentaneamente enquanto seis homens especialmente armados entram na agência, carregando um malote de dinheiro trazido pelo carro forte estacionado lá fora. Vou à lotérica carregar meu pré-pago e a atendente tem uma voz esganiçada,  por causa do sistema de som instalado no vidro blindado. Pretendo pegar o metrô, que passa embaixo. Na bilhereria, a mesma voz desumana, por causa do mesmo sistema no vidro blindado. Passo a catraca e a plataforma está um caos. Os trens estão momentaneamente parados porque alguém caiu ou se jogou ou foi empurrado e morreu embaixo de um deles, em outra estação da linha. Mas o sistema de som tranquiliza a multidão, com sua atenuada desinformação na voz aveludada da locutora. Finalmente consigo embarcar, graças ao meu talento de contorcionista e ao meu atrevimento. As mulheres seguram firmes suas bolsas junto ao peito. Desço duas estações à frente, subo três lances de escadas rolantes, saio à rua e, para respirar, preciso, antes, ultrapassar o pelotão de vendedores de guarda-chuvas e distribuidores de panfletos. Um carro do Google passa, com sua câmera no teto, olhando todo mundo. Escurece. Amplas luminárias subvertem a noite, sem deixar espaço sujeito a dúvidas. A lua passa pálida de um lado ao outro da rua, através das coberturas dos prédios. Finalmente chego ao Shopping, onde pretendo assistir a um filme, numa das suas salas. A porta se abre automaticamente, sob olhares atentos de quatro vigilantes. Subo ao último andar, onde serei atendido pela mesma voz de taquara rachada da pobre mulher atrás do vidro blindado da bilheteria do cinema.



Escrito por Roberto Buzzo às 21h22
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Coração

CORAÇÃO

 

     Lendo uma notícia dessa, ponho em dúvida a sabedoria da natureza. O homem não deveria se interessar por mulher – e vice-versa – aos 12 anos de idade. Nem aos 18. Estou propenso a defender 55. Um homem só deveria se interessar por uma mulher aos 55 anos de idade. Mas aí não vale a vice-versa...  Para a mulher, penso em defender a idade de 40 anos.

     Ele tinha 18,  ela 14. Ficaram 6 meses juntos. Ao menos um deles achava o parceiro o indivíduo mais cheiroso e interessante do mundo. Parece que era o rapaz que sofria desse grave defeito no olfato. Tudo indica que a garota era mais realista e viu logo que o cara era um mala. Mas demorou pra dar um pé na bunda dele, já sabendo que ele jogaria merda no ventilador.

     Aos 13 anos, a garota ficou agradavelmente surpresa quando percebeu claramente que havia alguém no mundo que se interessava por ela enquanto ser natural. Toda sua função cerebral transferiu-se para os músculos, concomitante à farta irrigação sanguínea. E ela disse sim, mas deve ter se arrependido meia hora depois. Mas aí teve de esperar 6 meses pra mandar o  parvo ir plantar batatas.

     O cara não percebia as indiretas da namorada. Havia um quadro fixo em seus comandos mentais. Demorou, mas finalmente havia encontrado a mulher com quem constituiria familia, dois filhos, o primogênito seria homem e se chamaria Junior, e seria Advogado e faria a primeira comunhão aos 7 anos. E sexo, só depois do casamento. Ele, o parvo, e também o Junior.

     A garota não aguentava mais aquele chato e finalmente disse a ele que estava tudo acabado. Ela era inexperiente nisso e deve ter cometido alguma indelicadeza no processo. Ou não. Com um sujeito obtuso daquele, não havia saída civilizada, não é possível se entender com alguém que tem um quadro fixo no lugar do cérebro.

     O processo de rejeição e aceitação entre duas pessoas é complexo. E o rapaz  era simplório. Não percebeu as nuances, os indicativos. O simplório não aceita meio-termo: é assim ou assado. O simplório tem dificuldade enorme em entender os processos de transformação em geral. Tudo para ele é definitivo.Imutável. O simplório é como um lago sem vento.

     Mas a vida não é simplória. Nunca. Mesmo quando parece.  E o rapaz, de 18 anos, rejeitado pela namorada -  a primeira namorada -, pensou que fosse. Sua primeira namorada, que ele queria que fosse a última... Frustrado, imaginou cometer uma patifaria. Mas não conseguiu. Para ser patife, é necessário usar algo do cérebro.

     Enfim, o rapaz de 18 deu três tiros na garota de 14 e feriu gravemente o ex-futuro sogro de 33 e deu um tiro em si próprio. A avó da garota e mãe do ex-futuro sogro, de 53, vendo o cenário, sofreu um ataque e morreu. Do coração. Aliás, o coração, que esteve o tempo todo a comandar com exclusividade essa tragédia.



Escrito por Roberto Buzzo às 20h35
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Filhos

FILHOS

 

O homem nasce, cresce, cria um (ou mais) filho e morre. Há quem fuja ao script e esses têm uma velhice menos traumática. O velho que não teve filho já está há mais tempo acostumado. O pai velho é um recém-liberto da tarefa de tornar o filho adulto. Na pior idade, ele se vê só e solto. Enquanto aquele que não teve filho já superou esse trauma lá atrás, ainda durante certa juventude.

Falemos de quem cria filho. Acontece normalmente em plena adolescência, entre os 20 e os 35 anos. Estranhe à vontade essa minha reclassificação etária para a adolescência. O filho vem para domar o sujeito, para mostrar a ele o valor das coisas pequenas. O adolescente vive à larga, menosprezando cuidados aparentemente banais. De repente chega o filho e revoluciona seus conceitos de banalidade.

O adolescente não come, não dorme, não limpa, não guarda. E ainda maldiz o pai, que cobra, que mostra. Aí tem um filho, e sua vida vira do avesso. Poucos fogem dos novos limites. A rotina é pequena mas não é simplória. Porque o novo pai sente que a vida se reduz e se multiplica.

Muitos não entendem porque as pessoas mais pobres e/ou mais simples têm tantos filhos. É porque filhos dão sentido à vida dos pais. Para quase todas as pessoas, um filho é a única maneira de afirmar a própria humanidade e marcar minimamente o planeta. Já que a maioria nunca vai escrever uma carta ou semear um canteiro de cenouras ou sintetizar um conceito.

Há a idade em que o filho instaura o céu e o inferno na casa. Em que o pai quer estar longe e, longe, quer estar perto. E há a idade em que o filho instaura a obsolescência dos pais. Quando se torna adulto, autosuficiente.  A autosuficiência do filho é o objetivo de todo pai. Que, bem sucedido, aí, sim, é que tem de segurar as pontas. Quando descobre que sossego, só no útero.



Escrito por Roberto Buzzo às 08h31
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UBATUBA

 O Oceano Atlântico de um lado, a Serra do Mar do outro. Ubatuba.  O mar e a montanha, a praia e o sertão. Isto mesmo, sertão, em oposição à praia. Em Ubatuba, o sertão não está em toda parte, nem dentro de nós: está a 2 Km da praia e vai até onde é possível subir a serra, coisa de 6 ou 7 Km. Águas. O mundo de Ubatuba é um universo aquoso. A água propriamente dita do mar verde-azulado a se esbaldar em ondas dos mais diversos calibres; as corredeiras e cascatas e cachoeiras das águas rápidas que descem a serra sobre o planeta Pedras. Pedras de todos os tamanhos. Pedras íntegras, fracionadas, redondas, quadradas, lisas, ásperas. Pontiagudas traiçoeiras lodosas escorregadias. Águas nos musgos encrespados nos troncos, em todos os troncos, nas folhas intumescidas das gramíneas deformadas, nas trepadeiras malemolentes, nos cipós imprestáveis, nos coqueiros com troncos de guatambu, nas marias-sem-vergonha vulgarmente espalhadas, nas borboletas lentas. Águas no ar sonolento de neblinas e garoas, nos pernilongos prenhes, no canto descompassado do bem-te-vi, no salto tímido do desconhecido passarinho que vi. Águas do mar. No fungo que grassa na parte aérea da canoa a motor, água que vai e que vem a fustigar a areia no mar que balança, que beija a serra de quando em quando, delimitando as praias e os sertões, que sobe e que desce conforme as marés, que se excede nas ressacas, águas sem fim que só acabam na África, águas e ilhas ao longe, gaivotas pescadoras, homens secos sobre as águas. Umidade. Ar balofo grávido de cortar; denso pesado ventante perfumado contraditório. Sertão. Rios caudalosos e calmos. De um lado, a parede serrana; do outro, a bacia oceânica. Sertão, merejos, canais. Solo, caminhos, curvas. Espécies. Flora. A flora está em toda parte. Bananas. A fauna está dentro de nós. Bananinhas ordinárias. Cupim. Ferrugem. Ubatuba. O homem seco entre águas nervosas e sonolentas, frias e mornas, doces e salobras. O homem de chinelas e bermudas, seco, de peles crestadas, indefinidas, secas, de olhos baços impenetráveis longos. Mudo camaleão estrangeiro. Sério, irônico, condescendente. O homem-pedra de Ubatuba. Jacas. Vacas comendo jacas. Jacas em toda parte, ameaçadoras. Jaqueiras retas, esquálidas, competitivas. Vacas na pista. Flora e fauna e água mineral. Água e pedra. Minério. Em Ubatuba o mundo é mineral, a floresta é exuberante e os animais pululam sem espaço. Sal. Peixes. Bagres corvinas mandis. Fartura de mormaço. Sol. E chuva a qualquer momento. Fermentos.Vegetais e animais em decomposição, putrefeitos, descompostos, incorporados. Odores. Areias. Brancas, negras, amarelas. Estruturas prosaicas provisórias pífias, mas perenes. Turistas crianças jacarés infláveis escunas tobogãs. Ubatuba, céu e inferno da classe média paulistana. Bundas.



Escrito por Roberto Buzzo às 19h40
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PERMISSÃO PARA UM LAIVO AUTOBIOGRÁFICO

     Nada me lembra, tinha cerca de um ano de idade, foi minha mãe quem contou. Estava aprendendo a andar, naquela fase em que o sujeitinho levanta, dá dois passos, cai..., assistido por pais, avós e tios, embasbacados com a ousadia do nenê e já antevendo a habilidade do futuro atleta.

     Então eu e meus pais sofremos um acidente de trânsito, durante uma longa viagem entre o Oitenta e um, município de Guaraci, e o Noventa e sete, município de Altair, onde moravam meus avós maternos, coisa de três léguas de distância. Oitenta e um e Noventa e sete eram bairros rurais, determinados pelos quilômetros da ferrovia de bitola estreita que saía de Bebedouro e ia até Nova Granada, norte do estado. A locomotiva era movida a lenha e anos depois viajei muito nessa Maria-fumaça. Mas nessa longa e trágica viagem, o veículo era um semi-trole, movido a mula. Conforme o nome diz, o semi-trole é um meio trole, aquela espécie de carruagem aberta, de quatro rodas raiadas de madeira, puxado por vários animais. O semi-trole nada mais é que uma charrete em que as duas rodas são de madeira, puxada por um único animal.

     A mula Laguana puxava o semi-trole em velocidade de cruzeiro, coisa de oito quilômetros por hora, pela estradinha de terra, limitada por baixos barrancos. A viagem transcorria modorrenta, com o meu pai pilotando o veículo e assobiando sempre a mesma e indefinida melodia e a minha mãe em silêncio, sentada ao lado, me segurando no colo. De repente, assustada com algo, a besta disparou estrada afora feito doida (e essa é a origem do verbo desembestar*). Quando a mula ou o burro** dispara, não tem quem segura e aí é um salve-se-quem-puder. Meu pai era excelente carroceiro e tinha grande habilidade com muares e equinos. Até hoje não entendo como isso aconteceu. Especulando, acho que foi uma pendenga passional entre meu pai e a mula, por causa da minha presença. Porque, se meu pai não estabelecia amizade com gatos e cachorros***, o mesmo não se dava com os animais de tração em geral, com quem ele se dava muito bem. E aí acho que deve ter rolado algum ciúme da parte da mula.

     O molejo do semi-trole era nenhum, qualquer buraco provocava um tranco****. Puxado por uma mula em disparada, o veículo saltava estrada afora como cena de desenho animado, no terreno irregular. Num desses trancos meu pai caiu e chegou a ser arrastado por alguns metros. Sobraram eu no colo da minha mãe sobre o semi-trole desgovernado e o meu pai lá atrás, a salvo mas desesperado. Mais adiante, uma das rodas subiu no barranco e o semi-trole virou, libertando mãe e filho com um voo que aterrisou no poeirento e macio piso da estrada deserta, cortada por sulcos de outras rodas de outros veículos similares e precedentes.

     Como se em Belém, na Palestina, a família sadia e salva se viu a pé e desamparada no meio do nada, mas com o olhar alto, guardando o horizonte, enquanto a mula Laguana desaparecia na pirambeira, puxando o que sobrou do semi-trole. Tudo bem, que o diabo a levasse, aquela mula safada. O importante era que todos estavam bem, principalmente o nenê. Eles ainda não sabiam das minhas sequelas.

     O fato é que aquele nenê tão hábil, que já conseguia andar dois passos de modo tão lépido, voltou a se movimentar como um bebê de seis meses. Ao invés de alegria, suscitava tristeza da família toda. Principalmente na avó, que, então, fez uma promessa para um santo da sua devoção, acho que Santo Antônio, era esse o santo da sua devoção. Enfim, cá estou, 55 anos depois, andando normalmente. Peraí.

     Você, oh crédula leitora, deve estar se regozijando com o poder da fé. Você, oh cética leitora, deve estar se regozijando com a força da natureza, invencível quando o acaso protege as vítimas de uma pancada mais contundente ou de uma queda de cabeça. E ambas, aliviadas, constatam  cá distante no tempo, que eu, meu pai e minha mãe saímos ilesos. Mas estão enganadas. Não se lembram que eu despertava fortes emoções em meus parentes, com minhas manobras pré-acidente? Além de fortes, minhas pernas eram hábeis. Eu seria fatalmente um grande craque, um doutor Sócrates melhorado, melhor que o Neimar.  Entretanto, sou um reles ultramaratonista, com a irrecuperável sequela de ser um grande perna-de-pau.

* ou “a doida disparou feito besta”, e essa é a origem da expressão “feito besta”, para designar uma ação destrambelhada.

** Seu Aurélio, lá na minha terra o masculino de mula é burro. Que, por isso, não é palavrão. Palavrão lá é “mulo”.

*** seus inúmeros gatos e cachorros nunca tiveram nome, sempre foram impessoalmente tratados no genérico.

**** lá na minha terra isso se chama “bacada”.



Escrito por Roberto Buzzo às 22h22
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republicando:

Trocando em Miúdos

 

Pois é... não dá pra continuar... você não mais vê graça em meus roncos, em meus gases, em minhas opiniões. Das minhas piadas você nunca riu, mas agora elas te ofendem... das minhas idéias você só desconfiava, mas agora as combate... até o sabonete você dividiu, o desodorante, escondeu. Você já não confia nos meus improvisos, nos meus arroubos...é o fim: até a porta do banheiro você fechou pra mim. Tudo bem, fica com essa medida do Bonfim; ela só me encheu o saco, nada me valeu; mas, por favor, deixa eu levar o disco do Pixinguinha, tá? Só quero isso,  não levo mais nada, pode ficar com o resto, ou seja, com tudo o mais, com todos os demais objetos, eu só levo o Pixinguinha, pra mim tá bom.

 

 Quanto à minha aliança, toma, restituo-lhe tua algema. Eu nunca a suportei. Ela é a prova maior do meu esforço. Sem o seu peso, meus ombros voltarão a andar eretos e os meus braços a bailar. E não serei mais um animal de estimação, de produção. E não terei mais dona. Junte-a à tua; empenhe-as ou derreta-as; faça  delas algum dinheiro, você vai precisar. Entretanto, se decidir reaproveitá-las em teu próximo casamento, tenha, pelo menos, o cuidado de apagar minhas iniciais.

 

 Mas,... digamos, ou seja, bem... antes de eu ir embora, vamos...como diria...que tal uma saideira? Pela última vez, porque nunca é tarde, vamos dar conseqüência ao que restou dos nossos hormônios. Oh, e, por favor, após, lave os lençóis. Deixo sobre o criado vinte reais pra lavanderia.  Aliás, pensando bem, aceita a grana do teu atual namorado. Você está desempregada, tem o direito. Fica tranqüila, você jamais será ou parecerá uma prostituta, com esse teu queixo nobre, com esses teus olhos duros, cor-de-burro quando foge, com esse nariz empinado.

 

 Estou indo embora. Não houve brilho traiçoeiro, há muito que não consigo ver teus olhos, envolvidos pelas sombras dos móveis do nosso lar. Pode ficar com a geladeira, o fogão, a cama. Mas, recomendo-lhe: quando teu novo amor aqui vier morar, troque pelo menos o colchão; ele está em bom estado; o Miguel, da portaria, leva.

 

Não, não vou chorar na tua frente. Fica sossegada, procurarei um canto solitário; não constrangerei ninguém com minhas lágrimas, com meus soluços. Procurarei um ermo sombreado para fazê-lo, uma estradinha de terra numa montanha; aguardarei a presença de um capão de mato, com árvores de ambos os lados. Não vou te cobrar por eventuais estragos em meu coração, porque não haverá estragos. O esforço sobre-humano que ele está tendo por causa do nosso divórcio será compensado com muito treino aeróbico. Fica tranqüila. Inclusive, já agendei meu exame anual de saúde.

 

 Fica tranqüila, não farei escândalos, não criarei casos, não tentarei resgates, não entrarei na Justiça. Saio sem alarde. E, como já disse, levo apenas o disco do Pixinguinha e muita saudade, mas não tentarei retorno. Ah, ia me esquecendo. Levo também um naco das nossas melhores lembranças e um restinho de ilusões, além de todos os meus documentos atualizados.

 

 Ainda: devolva o Neruda que você pegou em minha escrivaninha fingindo entusiasmo, como se fosse leitora assídua daquela poesia engajada, em moda nos círculos mais elitistas de certa classe média recém letrada e proto consumista, que você tanto admirava e à qual pretendia pertencer. Tudo bem, eu sei que você nunca leu, que era só pra me impressionar, ou melhor, para enganar a si própria. Era o mesmo movimento das visitas aos museus, às bienais, às temporárias de pintores de Paris... você renegando nossa rica simplicidade e soterrando de preconceitos nossas origens. Por favor, meu Neruda, minha única intransigência.

 

 Estou indo embora. Sim, nem era preciso dizer, levo a caixa de ferramentas, mas continuarei na cidade. Qualquer torneira pingando, qualquer cano entupido, é só chamar. (A bênção, C. B. de H.)



Escrito por Roberto Buzzo às 19h56
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Dito Benzedô II

DITO BENZEDÔ  II

 

Então, Dito Benzedô montou seu rancho na beira do Rio Grande. Município de Orindiúva, norte do Estado de São Paulo. Brejos, barrancos, lagoas, correntezas, rio de verdade. Rancho ajeitado, telha de barro, tijolo aparente, batentes roliços, lenhas, tramelas e lampiões. Galinhas, porcos, cabritos e cavalos. Gato, cachorro e papagaio. Um rego, uma roda d’água e um monjolo. E muita arruda, barba-de-bode, erva-santa-maria, cidreira. E muito tomilho, confrey e camomila. E muito cheiro-verde, coentro, alecrim, hortelã e manjericão. E orégano, malagueta, poejo e erva-doce. E uma espingarda de dois canos pendurada na parede só pra enfeitar e um estilingue pra usar. E sete guizos de cascavéis que roçavam a cabeça de quem entrava, para avisar.

A dona estacionou seu carrão bem debaixo da janela. Atrevida! Tudo isso soube depois. Que a motorista era mulher, soube quando desceu do carro, porque antes, não dava pra ver nada através do vidro escuro. Que estava sozinha, soube bem depois, quando ele mesmo entrou no carrão, para estacioná-lo corretamente. Que era atrevida...bem, quando viu a dona caminhando em sua direção, com o queixo levantado e um nariz arrebitado segurando modernosos óculos escuros, pressentiu algo.

Ela entrou no seu barracão como quem entra num puteiro: examinando a arquitetura. Tirou os óculos tão logo ultrapassou o portal. Seus olhos eram pretos cor-de-burro-quando-foge, grandes e arredondados e desprotegidos. Foi logo criticando a ausência de forro no teto e de cortinas nas janelas. E ele, já puto, foi logo avisando-a que todos aqueles panos que faltavam naqueles forros haviam sido desviados para aviarem a cama, que era espaçosa. E foi aí que ele sentiu o primeiro tranco nela.

Não queria saber nada, não tinha dúvida nenhuma. Por seu lado, ele estava leve como uma lesma e sábio como o Google. E querendo saber tudo. Mas mesmo assim, a dona queria pagar. Perguntava se devia fazê-lo adiantado. Pergunta que o deixava em dúvida quanto à eficácia do seu taco, se era conveniente deixar para o final. E aqui abro parêntesis para comentar a prática das putas: cobram sempre adiantado. Sinal de que prestam um péssimo serviço.

Não foi preciso mais do que meia hora e um chazinho de ervas finas. Mas gostou da dona quando aceitou provar da sua aguardente. E o tiro de misericórdia foi quando o fez numa talagada. Já sabia bem do que ela precisava. Já sabia bem o que ela queria. Lá fora começou a chover. O carrão continuava atrevidamente embaixo da sua janela. O tempo fechava, ventanias e enxurradas. Eram quatro horas da tarde, mas as galinhas procuravam o poleiro. Os olhos da dona arredondaram-se mais ainda de temor. Não enxergava bem à noite, não sabia dirigir no barro.

Ela falava e olhava pra fora, na direção do carrão, que se avolumava como um tanque, no lusco-fusco da cerração. Sonso como uma porta, Dito Benzedô falou pra ela chamar seu acompanhante. Que entrasse, enquanto não passava a tempestade. Estou sozinha, respondeu-lhe ela, candidamente. É pra isso que serve um curandeiro, respondeu-lhe ele, cínico, como uma pessoa jurídica. E foi então que saiu no quintal, para melhor estacionar o carrão.



Escrito por Roberto Buzzo às 20h50
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Vinha publicando enquanto escrevia, agora está pronto, eis o conto completo, na sequência:

PÁLIDA AVENTURA NO FUNDÃO DA ZL

 

     Pardo, o policial caminhava despreocupado pela calçada da sua rua, já no quarteirão da sua casa. Policial, mas nem seu vizinho de tantos anos sabia disso, só eu. Calça jeans, tênis, camiseta com frase em inglês no peito e um símbolo que todo mundo conhece o significado, menos eu, brinco na orelha, tatuagem no antebraço, pequena mochila nas costas. Fundão da Zona Leste. Pardo. Por que pardo? Pardo, porque era filho de pai branco e mãe negra; pardo porque sua pele tinha uma tonalidade indefinida, tipo cor-de-burro-quando-foge e eis o motivo do destaque para a cor ou a raça ou a classe social do policial que caminhava aparentemente despreocupado. Sim, o homem pardo, cerca de 30 anos de idade, caminhava tenso, embora aparentasse certa jovialidade, talvez sincera, porque ele, com frequência, se divertia com o próprio disfarce.

     Pardo, sendo que essa condição natural do nosso personagem era a sua salvação e a sua desgraça, dentro do seu propósito de passar desapercebido. Salvação, porque ali naquele fim-de-mundo precário e descuidado, havia muitos brancos compartilhando a miséria, mas a maioria era parda. E desgraça, porque se fosse descoberto, seu castigo seria dobrado. Pardo, ali naquele mundo precário e descuidado e sem fim no tempo e no espaço, era o principal sinal visível de pertencimento à classe social dos pobres e branco era o seu oposto. Por isso, os brancos e pobres  ali viviam no pior dos mundos. Entretanto, se um branco pobre fosse descoberto policial, recebia um castigo relativamente brando da comunidade, mas se um pardo fosse descoberto policial, era severamente castigado por dupla traição ou por máxima idiotia.

     Enfim, o nosso personagem era um morenão boa-figura, nascido ali mesmo no bairro, recém casado, cuja mulher já andava barriguda e mal humorada com aquelas fardas sobre a cordinha esticada sobre a cama, e o quarto sempre no escuro e fechado à chave. Dessa forma, só restava a ela a cozinha, dos exíguos dois cômodos sem quintal no final do corredor da viela e as doenças respiratórias decorrentes de dormir naquele quarto que nunca recebia a esterilizante luz do sol nem as renovadoras lapadas de ares novos. O que seria do bebê, naquele quarto úmido e escuro? E tudo por quê? Porque ninguém podia sequer desconfiar que havia dependurada no varal daquele quarto-cozinha-sem-quintal-no-final-do-corredor-da-viela uma farda da polícia militar. Sendo que a mulher mulata-parda-sarada-bonita era muito dada a vizinhas e a visitas e contra-visitas e não tinha outro jeito senão trancar o quarto. (CONTINUA)



Categoria: contos
Escrito por Roberto Buzzo às 22h40
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CONTINUAÇÃO

II)   O que você acha, eu tendo a acabar com isso logo; o povo do lugar é pobre mas não é besta, e vê que a polícia militar só serve pra matar e prender pobre; um irmão polícia ou é traíra ou é otário e um ou outro não merece consideração; casa e vida de pobre têm muros tênues, frágeis, difíceis de defender, pelo bem e pelo mal a vida acaba compartilhada com a comunidade. Quanto tempo você dá a esse policial? Se o pobre comum já não é besta, imagina o comitê dirigente da comunidade. Já disse que o policial vai pela calçada, caprichado no disfarce, aparentemente despreocupado, já está quase chegando na entrada da viela, onde, diabos, justamente a lâmpada da prefeitura está queimada, um carrão se aproxima no sentido contrário, diabos, já deveria ter acendido os faróis...

     O carrão com os faróis apagados vinha devagar feito um jacaré, ao encontro do policial disfarçado. Faltando cinco metros, parou e dele desceram os dois homens pardos que estavam do lado direito do veículo, um em cada porta, e, apenas com gestos, convidaram o policial militar disfarçado em trajes civis que caminhava na calçada a entrar no carro, para um passeio. O pedestre não queria, já estava chegando a casa, a entrada da viela é logo aqui, minha casa fica lá no fundo, mas, enfim, meio a contragosto, entrou no banco traseiro do carro e logo atrás entrou o homem que dali descera há pouco. Lá dentro, do outro lado, havia um homem branco, que ali permanecera enquanto o carro estava parado, e, ao volante, esperava outro homem pardo. O carrão, com os cinco homens dentro, arrancou, agora com os faróis acessos, como se fosse uma jaguatirica.(CONTINUA)



Categoria: contos
Escrito por Roberto Buzzo às 22h38
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CONTINUAÇÃO

III) - Então, parceiro, nós somos da Associação, e zelamos pela pureza das relações civis e eclesiásticas dos moradores aqui do bairro, informou ao novo passageiro o homem branco e carrancudo ao seu lado, com ares de comandante.

     E, diante do silêncio do novo passageiro, continuou:

     - Nós sabemos, mediante profundas e minuciosas pesquisas, que a população aqui da vila é composta de 60% de otários e 5% de sábios e o restante é gente tonta, quero dizer, gente desorientada, perdida na vida. Os otários são maioria, mas como são muito medrosos, não se expõem, por isso são dominados pelos sábios. Dentre esses otários, uns cinco por cento nos dão algum trabalho, ao tentarem abrir espaço para seus interesses individuais, sendo que a maioria destes, para resolver seus problemas próprios, entra na polícia militar. Uma vez PM, vão logo para a Rota, e se tornam os mais ferozes e eficazes matadores de  outros pardos.

     O homem branco e carrancudo deu um tempo na falação, para ver se havia contraditório e, diante do silêncio, continuou:

     - Essa elite de otários, digamos assim, não tem salvação - falou manso e baixo, encarando o passageiro sentado no meio do banco de trás e dando um tempo para sustentar seu olhar -,  e você pertence a essa elite, concluiu firme e forte, acusando e condenando.

     Era um julgamento sumário, legítimo em tempos de guerra. O comandante era o homem mais triste daquele comando, por isso era o mais feio, avaliou o réu. Parecia ser o mais inconformado, e tudo levava a crer que era o mais violento. Isso explicava o fato de ser o comandante. Talvez por ser branco, é dura a vida de branco pobre, percebem-se duplamente incompetentes, sempre ouviram dizer que os brancos se dão bem na vida, daí o inconformismo e, quando entram na guerra, costumam galgar mais rapidamente a hierarquia, forma oblíqua de afirmarem a superioridade da cor, na qual sem saber acreditam, segundo ensinou-lhes a voz-ambiente. (CONTINUA)



Categoria: contos
Escrito por Roberto Buzzo às 22h37
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IV)     O carrão agora deslizava novamente como um jacaré, com os faróis apagados na noite escura de lua nova, numa ruazinha sem postes, esparsamente rasgada por fachos pálidos que escapavam de exíguas janelas. Logo adiante havia um enorme terreno vazio, que o passageiro sentado entre os dois homens no banco de trás reconheceu como cenário de uma cena em que fora protagonista, coisa de duas semanas atrás. Num lance rápido, digno da sua audácia, o passageiro do meio vislumbrou pelo canto do rabo do olho, uma nesga de cabo de pistola dando sopa no bolso da jaqueta do comandante e,  ato simultâneo, que a situação valia qualquer risco,  num bote certeiro e fulminante, apoderou-se da arma e, com eficácia digna dos mais experientes policiais de hollywood, quase tudo ao mesmo tempo, num único segundo, viu-se dono de um refém e da situação, com o pescoço do comandante dentro do laço do seu braço esquerdo e a pistola empunhada pela mão direita com o cano muito bem encaixado na têmpora direita do infeliz chefe então deposto.       

     - Você aí, paspalho -  gritou o policial, dono da situação, para o pardo que dirigia o carrão - acenda os faróis e ande com esse carro, vamos sair daqui rápido.

     - Rápido, rápido – ameaçou – senão estouro os miolos aqui do seu chefe, e vocês dois, coloquem as mãos no apoio da frente e cuidado com elas!

     O ex-comandante, então refém, grunhiu algo, enquanto o motorista continuava em sua pasmaceira, deixando o policial mais irritado e com o laço do braço esquerdo mais arrochado, para desespero do ex-comandante, que, quase sem voz, ordenou ao motorista que obedecesse as ordens do seu agressor. (CONTINUA)



Categoria: contos
Escrito por Roberto Buzzo às 22h36
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CONTINUAÇÃO

V)    - Vamos rápido para a avenida, paspalho – gritou o policial, na esperança de encontrar uma viatura da PM, coisa difícil naquele fim-de-mundo e naquela hora escura. Mas indo sempre em direção ao centro, uma hora as viaturas apareceriam aos bandos. Só que o paspalho do motorista, apesar de acender os faróis e aumentar a velocidade, não saía do labirinto de ruelas. Assim, mais irritado, o policial pressionava com mais força o cano da arma na têmpora do ex-comandante. Este, com voz sofrida, pediu mais uma vez ao motorista que seguisse as ordens do policial.

     - Vam’Vamo! Rápid’rápido! Pr’avenida,  pr’avenida!! – entusiasmou-se o policial, animado com o sofrimento do seu refém – senão faço um furo aqui nesta cabeça cheia de merda.

     Nesse momento o carrão corria numa ruazinha sem poste, ao lado de um terreno vazio que não dava pra ver, mas os cinco sabiam que ali era um campo de futebol de domingo. Diante do entusiasmo do policial e dos grunhidos do refém, o motorista freou bruscamente o automóvel e apagou os faróis e ficou como quem espera alguém ordenar algo. Quem falou foi seu colega do lado, dirigindo-se agressivamente ao policial:

     - Escuta aqui, seu cabra, vamo acabá com isso logo, todo dia morre soldado nosso nas mãos de vocês, um a mais não vai fazer diferença, atire nele e nós atiramos em você, porque você só consegue dar um tiro.

     - Miro filho-da-puta – gritou o comandante, ao colega que acabara de falar – depois a gente acerta...

     - Aí que você se engana, preto safado, eu posso morrer, mas além deste daqui, eu levo comigo mais um ou dois de vocês – gritou o policial, encarando os três quase ao mesmo tempo e demonstrando muita segurança. E finalizou, desafiando:

     - Se duvida, pague pra ver! (CONTINUA)



Categoria: contos
Escrito por Roberto Buzzo às 22h36
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VI)     Diante dessa situação, o ex-comandante começou uma ladainha de lamentos, quase um choro, pedindo pelo amor de Deus e de Preto-Véio e de Caboco-Salomão e de Jesus e o resultado foi o descontrole visível dos outros três, no sentido de se renderem, de se entregarem, num estado emocional de submissão que não passou desapercebido ao policial. A noite era escura, o lugar era ermo, a situação era propícia, o policial pensou na nova condecoração e possível promoção salarial e resolveu matá-los os quatro. Ali dentro do carro não era conveniente, porque os três estavam muito separados e semiprotegidos pelos bancos, um ou dois deles poderiam requerer mais de um tiro e então poderia sobrar algum para si próprio, que aquilo não era cinema. A operação de saída dos cinco do carro também era arriscada - começou a lamentar não ter requerido suas armas logo que fez o refém, com medo de que um deles, ao tocá-las, fizesse alguma besteira -, mas, enfim, aqueles três paspalhos estavam totalmente submissos, talvez nem mais se lembrassem de que portavam armas, finalmente, comandou a saída muito cuidadosa de um, depois o outro e o outro e, mais fácil do que avaliara, se viu do lado de fora, com os quatro dominados, ordenando aos três que ficassem bem juntos, de frente pra ele, enquanto mantinha o refém em seu laço inflexível. Ao fundo, o breu riscado por vagalumes cobria o campo de futebol, e ali perto, talvez num rego de esgoto, coachavam mais de um sapo. As casebres esparsas já estavam dormindo e, àquela hora, nem os gatos se aventuravam a testemunhar qualquer delito ali pras bandas do campinho. Aquilo sairia na TV, renderia grossa condecoração... (CONTINUA)



Categoria: contos
Escrito por Roberto Buzzo às 22h35
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